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sábado, 10 de julho de 2010

A Pessoa Certa


Rock in Rio 2010
"...esta espécie de encantamento, o estado de ânimo dos apaixonados em eterna espera do amor ausente, é semelhante ao delíquio dos hipnotizados; e o seu olhar lembra o dos doentes que erguendo a custo as pálpebras, despertam do coma. Do mundo estes só vêem um rosto, nada mais ouvem do que um nome.Mas, um dia, acordam.
Olha para mim.
Olham à sua volta, esfregam os olhos. Já não vêem só esse rosto... para ser mais rigorosa, vêem também esse rosto, mas tremido. Vêem um campanário, uma floresta, um quadro, um livro, o rosto de outras pessoa, a finitude do universo. É uma sensação estranha. O que ainda na véspera não se podia suportar, nos doía e queimava por dentro, hoje já não nos faz sofrer. Sentada num banco, sentes-te tranquila. Pensas algo do género: "Frango assado" ou "os Mestres cantores de Nuremberga" ou "preciso de comprar uma lâmpada para o abajur" e esta é a realidade e tudo, isto é igualmente importante.
... 
Ontem ainda queria vingança, ou redenção, querias que telefonasse, que tivesse necessidade de ti, ou que fosse metido na prisão e condenado. Sabes, enquanto sentes isso, o outro regozija-se por estar longe de ti. Continua a exercer poder sobre ti. Enquanto gritares vingança, o outro esfrega as mãos, porque a vingança significa desejo, a vingança é uma forma de constrangimento. Mas chega o dia em que acordas, esfregas os olhos, bocejas,e, subitamente, percebes que não queres mais nada. Nem te faz mal, se o encontras na rua. Se telefona, respondes como se deve. Se quer ver-te e precisas de falar com ele, por favor sente-se. E tudo isto com naturalidade, de modo franco e sincero, sabes... sem nada mais de convulso, doloroso, delirante. O que se passou? Não compreendes. E não queres já vingar-te, não... e compreendes que a única verdadeira vingança, a mais perfeita, está em nada mais quereres dele, nada lhe desejares de mau, nem de bom, não conseguir já fazer-te sofrer.
...
Sofri muito, e julguei, durante um ano que ainda me dava um ataque do coração. Mas uma bela manhã, acordei e descobri uma coisa... sim, a mais importante, que só sozinhos podemos saber.
...
Olha, querida, o Senhor foi rude comigo, mas, simultaneamente, quis fazer-me dom de descobrir a verdade, que eu suportei sem perecer. O que descobri?!... Pois, minha cara, que não existe a pessoa certa.
Um belo dia, acordei, sentei-me na cama e sorri. Não sentia dor. E, subitamente, percebi, que não existe a pessoa certa. Nem na terra, nem no céu. Nem seja lá onde for, podes ter a certeza. Existem somente pessoas, e, em todas elas, um pedacinho da pessoa certa, mas em nenhuma se concentra tudo o que se aguarda e dela esperamos. Nenhuma pessoa reúne em si tudo isso, nem existe a certa, a única, a maravilhosa, essa figura singular que nos traz a felicidade. Existem somente pessoas, e, em todas elas, há escórias e um raio de luz, tudo..."
Excerto de "A Mulher Certa" de Sandór Márai

terça-feira, 4 de maio de 2010

Um grito de amor desde o centro do mundo

Corações de Joana Vasconcelos no CCB*
"Quem me dera que o sonho fosse realidade e que a realidade fosse um sonho! Mas é impossível. Por isso, quando acordo, estou sempre a chorar. Não é por estar triste, é porque quando regresso à realidade, saído de um sonho feliz, deparo com uma fenda que não consigo transpor sem verter lágrimas. E, por mais vezes que me aconteça, reajo sempre assim."
Excerto retirado do livro "Um grito de amor desde o centro do mundo" de Kyoichi Katayama

Estes corações com o fado como som de fundo representam a nostalgia do excerto acima.
* Corações
 – Vermelho, do fado, do amor, dos sentimentos; O Dourado, que representa o ouro e a tradição portuguesa e o Preto, que simboliza a morte, a dor e o sofrimento”

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Agora a sério


Henry, um dramaturgo dividido entre duas actrizes, Charlotte e Annie, é o protagonista desta tragicomédia em que Tom Stoppard usa o teatro dentro do teatro para lançar no palco um debate sobre as ideias-feitas de fidelidade, realidade e talento. 
Assim Stoppard "respondeu" aos críticos que o acusavam de não escrever sobre sentimentos, sobretudo sobre amor.
Sob a metáfora de um castelo de cartas, amor, sofrimento, ciúme e alegria transfiguram o palco, figurando a vidas e os jogos de enganos e desenganos em que as pessoas se conhecem e dão a conhecer. Quando poderemos dizer que "agora é a sério"?

Nas várias opções que a cidade de Lisboa nos oferece, escolhi esta peça que tinha estreado dia 29 Abril, pelo elenco e pela história em si. Valeu a escolha. 
Tive uma tarde perfeita a anteceder o espectáculo em que eu própria me ouvi dizer a alguém, que talvez as escapadelas servissem para olharmos para os nossos relacionamentos com outros olhos e nos ajudassem a dar mais valor às pessoas que temos ao nosso lado. Se acredito nisso?! Não a 100%, mas aquele talvez fosse o caso! Conseguir compreender as razões da infidelidade não quer dizer que queira isso para mim, sendo traída ou traindo. 
Prefiro ver as situações como momentos... apenas e só, momentos em que ninguém quer roubar a felicidade alheia, apenas acrescentar algo. E sim, sou feita de outra matéria que não aquela que aceita bem que a pessoa ao meu lado se ande a divertir por aí com outras debaixo do meu nariz...
Acredito na monogamia e pratico-a quando estou num relacionamento, mas que esta peça nos demonstra bem a facilidade com que hoje em dia construímos relações à volta da própria relação, não há que esconder. Prefiro ser avestruz e enfiar a cabeça na terra, para não ver tão nitidamente essa realidade e o que mais me importa é que a pessoa ao meu lado me trate muito, muito bem!
Adorei ter a companhia do Mister, como sempre aliás, é um verdadeiro amigo, que merece ser feliz, sempre!
E eu, hoje, dia 30, compreendi que há coisas que poderiam durar a vida toda, mas que simplesmente o meu coração não merece ter tão pouco... sou amiga, sou mulher, sou Humana!

terça-feira, 27 de abril de 2010




"o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com o fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um banco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonados..."  


Excerto do texto original de "lavoura arcaica" de Raduan Nassar

Dedicado ao meu amigo Mister, porque entenderá cada palavra escrita (e porque as reescrevi por ti) e ao meu doce B. que hoje me tocou esta música e me apaixonou...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Frases soltas...

...passeavam por Lisboa
Cascais - 2009


A propósito do pão de queijo - "Quentinho e com manteiga é muito bom!" (para o enjoo suponho)


"O Xarope se soubesse a caipirinha é que era bom!"


"Nunca tive tanta potência como agora!"


"Arranjei-me, fiz a barba, e fui esperá-la à estação. Quando ela me viu perguntou logo 
-Estás tão lindo! onde vamos? 
Vamos mas é para casa dar uma!"
(valeu a produção, digo eu)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Feliz Dia da Mulher



Existem milhares de frases que poderia colocar aqui, mas esta para mim, engloba o que qualquer mulher deseja (a meu ver)*.

"Uma mulher bonita não é aquela de quem se elogiam as pernas ou os braços, mas aquela cuja inteira aparência é de tal beleza que não deixa possibilidades para admirar as partes isoladas."
Lucius Annaeus Seneca
Ser um todo e não a parte.
Um beijo em especial às mulheres mais importantes da minha vida e que me aturam há 27 anos... a minha Mãe e a minha Avó.
*Peço desculpa, mas tive de repetir a do ano passado.. 

terça-feira, 2 de março de 2010

Carta da Corcunda para o Serralheiro

 Catedral de Notre Dame

Senhor António:
O senhor nunca há de ver esta carta, nem eu a hei de ver segunda vez porque estou tuberculosa, mas eu quero escrever-lhe ainda que o senhor o não saiba, porque se não escrevo abafo.
O senhor não sabe quem eu sou, isto é, sabe mas não sabe a valer. Tem-me visto à janela quando o senhor passa para a oficina e eu olho para si, porque o espero a chegar, e sei a hora que o senhor chega. Deve sempre ter pensado sem importância na corcunda do primeiro andar da casa amarela, mas eu não penso senão em si. Sei que o senhor tem uma amante, que é aquela rapariga loura alta e bonita; eu tenho inveja dela mas não tenho ciúmes de si porque não tenho direito a ter nada, nem mesmo ciúmes. Eu gosto de si porque gosto de si, e tenho pena de não ser outra mulher, com outro corpo e outro feitio, e poder ir à rua e falar consigo ainda que o senhor me não desse razão de nada, mas eu estimava conhecê-lo de falar.
O senhor é tudo quanto me tem valido na minha doença e eu estou-lhe agradecida sem que o senhor o saiba. Eu nunca poderia ter ninguém que gostasse de mim como se gostasse das pessoas que têm o corpo de que se pode gostar, mas eu tenho o direito de gostar sem que gostem de mim, e também tenho o direito de chorar, que não se negue a ninguém.
Eu gostava de morrer depois de lhe falar a primeira vez mas nunca terei coragem nem maneiras de lhe falar. Gostava que o senhor soubesse que eu gostava muito de si, mas tenho medo que se o senhor soubesse não se importasse nada, e eu tenho pena já de saber que isso é absolutamente certo antes de saber qualquer coisa, que eu mesmo não vou procurar saber.
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
Eu até gostava de saber como é a sua vida com a sua amiga, porque como é uma vida que eu nunca posso ter — e agora menos que nem vida tenho — gostava de saber tudo.
Desculpe escrever-lhe tanto sem o conhecer, mas o senhor não vai ler isso, e mesmo que lesse nem sabia que era consigo e não ligava importância em qualquer caso, mas gostaria que pensasse que é triste ser marreca e viver sempre só à janela, e ter mãe e irmãs que gostam da gente mas sem ninguém que goste de nós, porque tudo isso é natural e é a família, e o que faltava é que nem isso houvesse para uma boneca com os ossos às avessas como eu sou, como eu já ouvi dizer.
Houve um dia que o senhor vinha para a oficina e um gato se pegou à pancada com um cão aqui defronte da janela, e todos estivemos a ver, e o senhor parou, ao pé do Manuel das Barbas, na esquina do barbeiro, e depois olhou para mim, para a janela, e viu-me a rir e riu também para mim, e essa foi a única vez que o senhor esteve a sós comigo, por assim dizer, que isso nunca poderia eu esperar.
Tantas vezes, o senhor não imagina, andei à espera que houvesse outra coisa qualquer na rua quando o senhor passasse e eu pudesse outra vez ver o senhor a ver e talvez olhasse para mim e eu pudesse olhar para si e ver os seus olhos a direito para os meus.
Mas eu não consigo nada do que quero, nasci já assim, e até tenho que estar em cima de um estrado para poder estar à altura da janela. Passo todo o dia a ver ilustrações e revistas de modas que emprestam à minha mãe, e estou sempre a pensar noutra coisa, tanto que quando me perguntam como era aquela saia ou quem é que estava no retrato onde está a Rainha de Inglaterra, eu às vezes me envergonho de não saber, porque estive a ver coisas que não podem ser e que eu não posso deixar que me entrem na cabeça e me dêem alegria para eu depois ainda por cima ter vontade de chorar.
Depois todos me desculpam, e acham que sou tonta, mas não me julgam parva, porque ninguém julga isso, e eu chego a não ter pena da desculpa, porque assim não tenho que explicar porque é que estive distraída.
Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é e não como tinha vontade de ser.
O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de vez em quando me dizer adeus da rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vêm, valha me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou toda a chorar."
("Carta da Corcunda para o Serralheiro" (Maria José, heterónimo de Fernando Pessoa) 

Ouvi esta "carta" em duas ocasiões, no Turismo Infinito, pela voz da fantástica Emília Silvestre, que na altura me arrepiou ao dizer isto de uma forma tão terna, sentida, com aquele entoar de uma voz querida e sôfrega ao mesmo tempo, ora lento, ora rápido, sempre brilhante! A outra vez foi na centésima edição das Quintas de Leitura... e agora quero deixá-la aqui, para que este texto... fique!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Breaking Up Is Hard to Do

Barcelona - foto de T.G.

We don't have anything in common," I said. 
"We're two completely different people.
It doesn't make sense to stay together."
But then she started to rub my penis through my pants; 
I suddenly remembered that we both did like Indian food.
Hal Sirowitz

A separação é difícil
Não temos nada em comum – disse eu.

Somos duas pessoas completamente diferentes,

Não faz sentido nenhum que fiquemos juntos.

Mas ela começou a esfregar-me o pénis através das calças

E lembrei-me de repente que ambos gostamos de comida indiana…
Tradução de José Luís Peixoto

Porque o achei... assim... tão actual e adequado!! (ouvi nas Quintas de Leitura - n.º 100)

sábado, 2 de janeiro de 2010

Amor físico

Frankfurt by night

"O amor físico não é sempre a eterna repetição do mesmo?
De forma nenhuma. Há sempre uma pequena percentagem de inimaginável. Quando via uma mulher vestida, embora, evidentemente, pudesse fazer mais ou menos uma ideia de como seria depois de despida (...) restava sempre um pequeno intervalo de inimaginável entre a inexactidão da ideia e a precisão da realidade, e era precisamente essa lacuna que lhe tirava o sossego.
(...)
O milionésimo de diferente está presente em todos os aspectos da vida humana e é publicamente desvendado em todo o lado, não precisa de ser descoberto, não é preciso nenhum bisturi para chegar a ele. (...)
Só na sexualidade é que o milionésimo de diferente aparece como uma coisa preciosa, porque não é publicamente acessível e tem de ser conquistado.
(...)
Os homens que têm a mania de mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher tal como elas lhes aparece em sonhos, o que é algo subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os o desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo.
A obsessão dos primeiros é uma
obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher, dá ao mesmo tempo uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma
obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo."
a insustentável leveza do ser de Milan Kundera

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O amor tem razões...

Kunsthalle Hamburg

...que a própria razão desconhece!
"Amai, rapazes! e, principalmente, amai moças lindas e graciosas; elas dão remédio ao mal, aroma ao infecto, trocam a morte pela vida... Amai, rapazes!"

"Ela amou o que me afligira, eu amei a piedade dela."
Dom Casmurro
por Machado de Assis

domingo, 18 de outubro de 2009

Quando me amei de verdade:

Ministério das Finanças, Dezembro 2008

... compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto. E, então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome, auto-estima.

... pude perceber que a minha angústia, o meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou a ir contra as minhas verdades.
Hoje sei que isso é ser autêntico.

... parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo a isso amadurecimento.

... comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é respeito.

... comecei a livrar-me de tudo que não fosse saudável…pessoas, tarefas, crenças, tudo e qualquer coisa que me colocasse para baixo. De início, a minha razão chamou a essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama amor-próprio.

... deixei de temer um tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projectos
megalómanos de futuro. Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é simplicidade.

... desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muito menos vezes.
Hoje descobri a humildade.

... desisti de reviver o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, mantenho-me no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é plenitude.

... percebi que a minha mente me pode atormentar e decepcionar-me. Mas quando eu a coloco ao serviço do meu coração, ela torna-se uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é saber viver.

texto de Kim e Alison McMillen adaptado

Ainda tenho de subir algumas escadas para lá chegar, mas hei-de ser forte.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A minha mãe sempre disse que eu seria um bom actor...

"É melhor ficar com a Tereza ou ficar sozinho?
Não há forma de se verificar qual das decisões é melhor por porque não há comparação possível. Tudo se vive imediatamente pela primeira vez sem preparação. Como se um actor entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que vale a vida se o primeiro ensaio da vida é já a própria vida?"
Excerto de «a insustentável leveza do ser» de Milan Kundera

domingo, 6 de setembro de 2009

As escolhas... o destino!!

Menschenschlange - Sigmar Polke, Hamburgo

"A ideia do destino é algo que surge com a idade. Quando se tem os anos que tu tens, geralmente não se pensa nisso, tudo o que acontece é como se fosse fruto da nossa vontade. Sentimo-nos como um operário que, pedra sobre pedra, vais construindo à sua frente o caminho que deverá percorrer. Só muito depois é que se repara que o caminho já está construído, que alguém traçou para nós, e que só nos resta seguir em frente. É uma descoberta que costuma fazer-se por voltas dos quarenta anos, então começa-se a perceber que as coisas não dependem só de nós. É um momento perigoso, durante o qual não é raro escorregar-se para um fatalismo claustrofóbico. Para veres o destino em toda a sua realidade, tens de deixar passar mais alguns anos.
Por volta dos sessenta, quando o caminho que percorreste não era a direito mas cheio de encruzilhadas, a cada passo havia uma seta que apontava para um direcção diferente; dali partia um atalho, de acolá um carreiro cheio de ervas que se perdia nos bosques. Alguns desses desvios fizeste-os sem te aperceberes, outros nem sequer os viste; não sabes se os que não fizeste te levariam a um lugar melhor ou pior; não sabes, mas sentes pena. Podias fazer uma coisa e não a fizeste, voltaste para trás em vez de seguir em frente. O jogo da glória, lembras-te? A vida vai avançando da mesma forma.
Ao longo das encruzilhadas do teu caminho encontras as outras vidas, conhecê-las ou não, vivê-las a fundo ou desperdiçá-las depende da escolha que fazes num segundo; embora o não saibas, entre seguir a direito ou fazer um desvio joga-se muitas vezes a tua existência, a existência de quem está perto de ti."
Excerto de "Vai Aonde te leva o coração" de Susanna Tamaro


Quantas vezes não vi esses caminhos... quantas não voltei ao mesmo ponto de partida, só que mais cansada e mais madura, às vezes mais triste outras mais feliz por saber que podia ao menos excluir um dos caminhos. Quantas caras se foram apagando da minha mente e hoje não passam de meros traços abstractos, quantas ficaram e são bem presentes na memória e na vida quotidiana. Gosto desse jogo, gosto da oportunidade que nos é dada de andar para a frente e recuar enquanto é tempo, gosto de cada cicatriz deixada porque me lembra o que me fez doer, afinal a vida é feita disso mesmo, como escrevi noutro dia num e-mail:
"Eu sou igual às outras pessoas.. defeitos e virtudes, alegre e triste, apenas humana!"

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Os segredos do "amor"...


- É a maldita profecia a realizar-se. Estudos do coração... Quem te estudar Guilherme, sai Stendhal, ou Balzac. Eu bem sei o que era preciso a Augusta para reconquistar o terreno que perdeu. O amor puro e santo da mocidade, já lá vai; o amor-apetite esfriou; o amor-vaidade, o único possível em ti, já não recebe estímulos. Augusta devia perder o pejo para te arrebatar de novo.
- Perder o pejo! Que disparate!
- Não é disparate. Se ela obedecesse a todos os teus caprichos...

- Caprichos!...Quais?

- Os que alimentam a
lavareda do orgulho. Tu amavas esta mulher, se os outros ta invejassem. Amava-la, se ela tivesse a sagacidade de trair-te... ao menos com os olhos num subtil disfarce... dum camarote para a plateia. Amava-la, se ela hoje se vestisse o mais sedutoramente que se pode, e ferisse lume nas calçadas do Porto com as patas do teu cavalo de Alter. A cada olho desejoso que a seguisse, sentias uma palpitação soberba. Quando dum grupo se dissesse: "que bela mulher!", respondias tu: "é minha!". E este é minha, que ninguém ouve, é uma expressão embriagante, só comparável à do avarento que abraça um cofre, exclamando "é meu!". A mulher assim desejada, deixa de ser o que nos parece a nós, e é aquilo que parece aos outros. O homem que ama apaixonadamente não cura de saber o valor que os outros dão à mulher que ama. Mas este não é o teu amor.
Camilo Castelo Branco, Onde Está a Felicidade?