sábado, 20 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Facas nas Galinhas
"A história inicial parte do que passei a saber sobre os moleiros. Os moleiros na Escócia eram muitas vezes postos de parte pela comunidade porque, como se diz no texto, existia uma lei que concedia ao moleiro uma percentagem da farinha que lhe era mandado moer. Os camponeses suavam no trabalho para conseguir o milho e o moleiro assobiava enquanto a mó trabalhava. E ainda por cima tinha direito a uma percentagem do suor do camponês. Inventei então a história de uma rapariga que, de cada vez
que vai ao moinho, se apaixona mais pelo moleiro.
(...)Quando parti para a peça, comecei a imaginar como seria viver num mundo onde só se tivesse certas palavras para certas coisas. Céu era céu e não era mais nada. Se o céu está escuro, então diz‑se
chuva. Não há advérbios, palavras que descrevam. Inventei uma língua, as personagens falam como se tivessem acabado de aprender a falar. Foi aqui que apareceu o outro elemento de Facas nas Galinhas. Passou a ser uma história tanto sobre o crime e o amor como uma história sobre a linguagem.
A escrita desta peça permitiu‑me fazer duas grandes descobertas que marcam hoje a minha escrita. A primeira está relacionada com a linguagem. Escolhi não utilizar a linguagem realista, porque as personagens têm de ser mais do que são, têm de ir além de si próprias, têm de ser metafóricas. Não sei
se ainda acredito nisto, mas na altura convenci‑me de que a história não pode ser apenas uma história, mas que tem de ter qualquer coisa para além dela.
A segunda descoberta foi a estrutura. Aprendi a estruturar e isso é uma das coisas mais importantes na escrita."
* Excerto de “Há um segredo no coração de cada cena” David Harrower. Artistas Unidos:Revista. N.º 4 (Abr. 2001). p. 2‑4.
Altar Particular
Parei... por uns dias!
Voltei... por muito tempo (espero)!
Quebro e reconstruo os pedaços... demoro dias, meses...
As lembranças, essas ficam por muito tempo, algumas tenho a sensação que ficarão para sempre como se estivessem entranhadas na pele... já fazem parte de mim!
Não há forma de apagar da mente o que nos faz mal, resta-me a sensação de dever cumprido...
Restam-me a família os amigos, sempre, as músicas que marcam os momentos e me ajudam a acreditar que basta ter vontade de abrir a janela todos os dias, sorrir e acreditar que não é a falta de uma pessoa, a desilusão com algumas outras que vai tornar o mundo menos aprazível!
Ainda há tantas coisas que não vi, ainda há tantas coisas que não vivi.
Ouvi isto ontem: "Você precisa esquecer toda a saudade que você sente e construir novas lembranças"
E hoje acordei com uma enorme vontade de ser feliz.
Fica a música que me acompanhou nos últimos dias:
E pôs meu frágil coração na cruz
No teu penoso altar particular
No breu de hoje eu sinto que
O tempo da cura tornou a tristeza normal
Não deixe ele vir na solidão
Encabulado por voltar a sós
Tu me devolva o que tirou daqui
Que o meu peito se abre e desata os nós
Tirar meu pobre coração do altar
Me devolver, como se deve ser
Tirar da cruz e o canonizar
Digo faço melhor do que lhe parecer
Tão longe quanto eu possa ver de mim
Onde ancoraste teu veleiro em flor
Estou com tudo a flutuar no rio esperando a resposta ao que chamo de amor
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
A Mãe
Em A Mãe, a relação está invertida: é o filho que, espiritualmente, dá à luz a Mãe. Esta reversão da natureza é um grande tema brechtiano: reversão e não distribuição; a obra de Brecht não é uma lição de relatividade, de estilo voltairiano: Pavel desperta Pelagea Vlassova para a consciência social (aliás, através de uma práxis e não através de uma fala: Pavel é essencialmente silencioso), mas isso é um parto que só corresponde ao primeiro alargando ‑o.
(...)Na ordem burguesa, a transmissão faz ‑se sempre do ascendente para o descendente: é a própria definição de herança, palavra cujo destino ultrapassa muito os limites do código civil (herdam ‑se ideias, valores, etc.). Na ordem brechtiana não há herança, senão invertida: morto o filho, é a mãe que o retoma, que o continua, como se fosse ela o jovem rebento, a nova folha chamada a desabrochar.
(...)
E contudo, há nela toda a “emoção”, condição sem a qual não há teatro brechtiano. Vejamos a representação de Helene Weigel (mulher de Bertolt Brecht e que interpretou "A Mãe" em 1932), que tiveram a ousadia de achar demasiado discreta, como se a maternidade não fosse senão uma força de expressão: para receber de Pavel a própria consciência do mundo, ela torna ‑se, em primeiro lugar, “outra”; no princípio, ela é a mãe tradicional, a que não compreende, que reprova um pouco, mas que serve obstinadamente a sopa, que passaja a roupa; ela é a Mãe ‑Criança, isto é, toda a espessura afectiva da relação está preservada. A sua consciência só eclode verdadeiramente quando o filho morre: ela nunca se junta a ele. Assim, ao longo de todo esse amadurecimento, uma distância separa a mãe do filho, lembrando ‑nos que esse itinerário justo é um itinerário atroz: o amor não é aqui efusão, é essa força que transforma o facto em consciência, depois em acção: é o amor que abre os olhos. Será, então, preciso ser ‑se “fanático” de Brecht para reconhecer que este teatro queima?
* Excerto de “Sobre A Mãe de Brecht”. In A Mãe. Almada: Companhia de Teatro de Almada, 2010.
(Textos d’Almada; 40). p. 20 ‑21.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Destruição
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Electra

"As cenas são descoladas e aparentemente sem relação ou objectivo comum, no entanto, vão desvendando uma espécie de personagem misterioso.É como se houvesse uma inquietação latente naquela mulher, onde cada momento e cada lugar por onde passa tanto são acrescentados como anulados pelos que se seguem.Cada cena, cada passagem tem uma força estranha, uma vivência e uma certeza que se instala desde o primeiro gesto.As acções banais entre as cenas carregam a carga do que acabou de fazer, tornando essas acções, também elas, em cenas.É uma mulher que não pensa nem sente. Ela tortura-se, obriga-se, anula-se...Castiga-se a passar o tempo congeminando uma nova forma de agir, de estar, de se lamentar, de se preparar, de lutar,... de jamais se esquecer.Não há resignação, não há desistência, apenas por vezes uma espécie de falso e tranquilo abandono.Ela mostra sem pudor a sua força e a sua fraqueza, a sua nobreza e a sua humilhação.Ela é uma mulher assustadoramente presente na sua ausência.Os seus olhares para o exterior de si são os únicos indicativos da sua espera onde o tempo não existe.Ela nunca se expõe, apenas se dispõe."
Bom dia, não é da Tourline Express!!
Não porque admire as competências desta transportadora, mas sim porque a sua incompetência é tanta, que merece os minutos que aqui vou perder.
Tudo começou porque gostava de um rapaz que tinha um 91! Como não falávamos tanto quanto eu desejaria, decidi comprar um cartão da Vodafone para que as chamadas ficassem mais baratas. Resultou... passei a receber mais chamadas dele, mas comecei também a receber chamadas de todo o país e às vezes até de Espanha.
Tudo porque peguei naquele específico pacotinho com um número que era exactamente igual ao de uma transportadora com sede em Madrid de seu nome, Tourline Express.
Pergunto-me porque é que os números de Madrid têm de começar por 91??
De início não percebia bem, até pensei que eram aquelas chamadas de brincadeira, mas depois percebi que para ser uma brincadeira, várias pessoas, de várias cidades, tinham decidido brincar especificamente comigo. Não batia certo!!!
Um dia, depois de atender mais uma chamada "É da Tourline Express?" Eu respondo "Não!!! Mas já agora podia dizer-me como obteve este número?"
Então a pessoa explicou-me que tinha visto na internet que para reclamar a encomenda que deveria já ter recebido, eles indicavam o meu número com a indicação "Porto" em baixo.
Ora vamos dizer que estas pessoas é que são tolinhas por acharem que um 91 seguido de 7 algarismos e com indicação Porto, Lisboa, Freixo de Espada à Cinta e afins, podia lá ser um número da Vodafone?? Nunca!! Deviam logo perceber que a indicação da cidade se refere que o atendimento será feito com um sotaque de cada região e que por ser de uma empresa de Espanha, as pessoas saberiam logo que têm de marcar 0034!
Eu, na minha boa fé, pesquisei na internet o email da empresa e escrevi com educação, explicando o que estava a acontecer e pedindo encarecidamente que tivessem a atenção de sempre que colocassem aquele número, usassem o indicativo do país.
Respondeu-me uma espanhola toda despachada, dizendo que de facto eles tinham aquele número, mas que era um número de Madrid e não percebia porque é que eu é que recebia as chamadas... Burra ou espanhola, não sei bem o que pensar?
Certo é que também recebi várias chamadas de Espanha que por verem a indicação Portugal se davam ao trabalho de colocar o 00351... de loucos não??!
Não resultou o meu email... escusado será dizer que as chamadas não pararam e que por outras 4 vezes enviei emails aos quais não obtive resposta.
No último chamei-os pelo nome: "incompetentes, burros, prestadores de mau serviço", acabei por perguntar se gostavam que lhes pedisse para me pagarem o serviço que lhes presto, por consideração às pessoas que me ligam e às quais digo que têm de marcar o indicativo de Espanha??!! Algumas ligam de novo "Desculpe, sabe-me dizer o indicativo de Espanha?" (sim, é verdade)
Pensei em tornar este, um número de valor acrescentado, mas depois desisti da ideia.
Na época de Natal é uma verdadeira festa. Em vez de ter amigos a desejar-me "Bom Natal!" tenho pessoas a perguntar-me "Quando é que vai chegar a encomenda para...??", claro que muitas vezes terminamos com o delicado "Bom Natal e Bom Ano" porque é época de amizade e amor.
Como moro sozinha e passo muito tempo só, por vezes estas chamadas quebram o silêncio e dão uma agitação ao dia! Às vezes imagino como são as pessoas do outro lado... é como tentar adivinhar a cara de um locutor de rádio.
Lembro-me de um dia, depois de ter sido operada e numa fase em que quase não podia sair de casa, recebi uma chamada de um homem com uma voz "inspiradora", tivemos ainda um tempo à conversa, ele voltou a ligar dizendo que tinha alertado a empresa e que esperava que aquilo não voltasse a acontecer! Muito querido e não deixei de sorrir!
Lembro-me também de uma senhora dos seus 60 anos(digo eu) que estava à espera de uma planta que lhe tinham enviado pela transportadora e ela estava muito preocupada, pois estava prestes a ser operada e como morava sozinha não sabia o que fazer caso a planta não chegasse antes de ela ir para o Hospital. Era uma senhora tão doce, tão querida... lembrou-me a minha avó; eu tentei explicar à senhora que tinha de marcar o "tão falado" 0034 antes do número indicado. Ela pediu-me imensa desculpa e eu desejei que ela recebesse a planta antes de ser operada e que entretanto a operação corresse bem.
Há outros dias em que não estou tão bem disposta e não me apetece sequer explicar nada a ninguém. Tenho amigos que me chamam "Neura", porque muitas vezes não atendo números que não conheço!
Pudera...
Já tive casos em que as pessoas do lado de lá, bastante irritadas depois de eu só atender à décima chamada e ter desligado outras tantas, quase me insultaram antes de qualquer coisa... outras vezes apetece-me fazer o contrário... Certo é que não me posso queixar de que o meu telefone não toca... toca sim, só que muitas vezes não é para mim!
Nota: hoje apercebi-me que o slogan da empresa é "Tourline Express: Como si lo llevarás tú mismo", Pessoas que não sabem de onde vêm, nem para onde vão?! :-)
sábado, 30 de janeiro de 2010
Concerto à la Carte
A história dos dias da senhora Rasch, quando chega a casa, é assim. Um após o outro, todos iguais, frios, abandonados. A vidinha, como sói dizer-se, na mais crua das rotinas. E no mais pesado dos silêncios. Um desafio particular à expressividade de qualquer actriz: a senhora Rasch não dirá uma única palavra. O alemão Franz Xaver Kroetz retratou, em 1971, a solidão de uma mulher entregue à depressão e à obsessão pelas coisas arrumadas.
Estive 1h30 sentada no Teca, depois de um dia em que me senti enjoada e com dor de cabeça, depois de ter andado algum tempo pelo Porto vestida de noiva e ter-me "posto" para umas dezenas de fotos e posso garantir que isso não me fez ter menos interesse por aquilo que se passou no palco. Apesar do silêncio, apenas quebrado pela TV, pelo programa n.º 56 de Paixões Cruzadas (António Macedo e António Cartaxo) da Antena 1, pelas actividades obsessivo-compulsivas da Senhora Rasch, pela sua ira, pelo seu andar, pela sua presença bem marcada apesar do silêncio. Esta história faz-nos reflectir sobre a nossa própria vida, sobre as nossas actividades rotineiras, sobre aquilo que desejamos e sobretudo sobre a solidão...
"Concerto à la Carte é a vidinha duma senhora, igual a tantas que moram no apartamento o lado, que se cruzam connosco no supermercado, a quem olhamos sem ver e que morrem sem sabermos e sem elas mesmas darem por isso." Rui Madeira
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Bomba - Quintas de Leitura

dança Hurra! Arre! (versão Boca de Cena)
Coreografia de Luís Guerra
Interpretação de Tânia Carvalho e Luís Guerra
Desenho de luz de Anatal Waschke
“Hurra!” é apresentado como um “grito de entusiasmo ou saudação, sobretudo em brindes”. Por sua vez, “Arre!” é descrito como “expressão para incitar as bestas a caminhar”. Luís Guerra, que assina a coreografia, responde-nos que este é um brinde à “dança enquanto expressão artística” e que as bestas aqui assumem o corpo de duas bailarinas para nos incitarem a fazer “o caminho dos sentidos”. “Queria criar um ambiente cenicamente simples para destacar os movimentos e a abstracção da própria dança.”
Para mim, muito bem feito, uma sincronização que cativa e mantém o olhar atento do espectador... algum sobressalto... mas dei por mim a querer andar e repetir alguns movimentos.
leituras Adolfo Luxúria Canibal, Isaque Ferreira, Rui Spranger, Sandra Salomé e Valter Hugo Mãe
"cinco, o menino jesus aprende a falar subitamente, o menino jesus disse, mamã, papá, e correram para ali maria, josé e deus e puseram-se a disputar o melhor lugar para contemplarem a criança. o menino disse, saiam-me da frente, já sei andar e quero ir à terra ver como estão os homens aflitos com as asneiras divinas." valter hugo mãe
O texto, para mim muito divertido e que gostaria de ver e cena, foi apenas "interrompido" que não é bem o termo, pelo violino de Ianina Khmelik que interpretou em 2 momentos distintos: Allemande de Partita n.º2 D Minor de J.S. Bach e Rock violin solo - 1983 - arranjo de canções de Jimmy Hendrix. Nestas 2 pausas por assim dizer, arrepiei-me com aquele som de uma beleza divina ou divinal.Durante as leituras e música, passaram na tela fotos de Nelson D'Aires, Vencedor do Prémio FNAC "Novos Talentos" em 2006. Nelson é um autodidacta que teve a sua primeira câmara em 2003, um ano depois de ter pegado numa pela primeira vez. Em 2005 deixou o trabalho de 10 para se dedicar aquilo que se revelou num talento. Fez bem, digo eu!
No final da I Parte, Valter Hugo Mãe, falou de si, da sua história, de Mário Cesariny e fez-nos rir com o seu jeito tímido, mas muito humorado de contar como conheceu o pintor e poeta e como eram as suas visitas à casa de Cesariny. Saímos para intervalo, não sem antes ouvirmos 2 parágrafos do novo livro de Valter Hugo Mãe "máquina de fazer espanhóis", lidos com muita emoção pelo próprio, afinal custa sempre falar de quem já se foi. Fica na minha lista de livros.
Na II Parte assistimos ao concerto de Tigrala ((Norberto Lobo, Guilherme Canhão e Ian Carlo Mendonza), que me eram desconhecidos. Confesso que mexeu muito comigo aquele "som", não sei se foi por ter recebido uma mensagem que me deixou bastante tensa, ou apenas porque seria preciso ir mais além para se gostar, por assim dizer, deste género de música. Talvez não tenha essa sensibilidade artística para dizer que gostei, o certo é que fiquei até ao fim.Fotos de Sara Moutinho retiradas deste site.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O Jornalista da vossa beleza
Braga, numa sexta-feira fria, o TUM (Teatro Universitário do Minho) apresenta a poesia de João Negreiros.
A.C. com os seus contactos :-) conseguiu 2 convites e lá fomos. Eu totalmente em branco em relação ao autor! Os textos são fortes, apaixonados, revoltados, estranhos, profundos... um misto de sensações me invadem especialmente, devo confessar, nas interpretações dos textos feitas por Andreia Dantas.
Apaixonei-me pelo "Quarto crescente" que não coloco hoje aqui pois não comprei esse livro.
Acabei por comprar o "cheiro da sombra das flores" e deixo aqui o texto que me apaixonou e levou à compra.
Dose da fatia de um doce
Dá-me um bocadinho do teu amor
todos os dias
não mo dês todo hoje
que amanhã vou precisar dele outra vez
eu sei
conheço-me bem
e nesse aspecto
sou exactamente como o resto da humanidade
preciso ser amado todos os dias
só espero não morrer muito velhinho
para que o teu amor me dure até ao fim da vida.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Amor
de André Sant’AnnaE apesar de aqui colocar aqui a data correcta em que vi a peça por uma questão cronológica, só escrevo sobre ela uma semana depois... por vários motivos e talvez por um em específico: entrei na sala com uma visão do Amor e só voltei a "senti-la" de novo alguns dias depois.
interpretação Flávia Gusmão
encenação Marcos Barbosa
desenho de luz Pedro Carvalho
assistência de encenação Diana Sá
produção Teatro Oficina
Demencial, incontrolável, controverso, grosseiro, electrizante: todos os adjectivos se têm aplicado a Amor, livro de André Sant’Anna.
(...)
O próprio autor notou: “Uma coisa é certa: Amor é bem melhor quando falado, quando lido em voz alta”. Não escapam à sua crítica aguda a academia, as igrejas, os media, a sociedade, os cientistas – todos hipócritas, todos culpados, todos sujos de sangue.
De tudo o que poderia ouvir sobre o tema, aquilo que retive, foram excertos de um texto algo desconcertante: "bucetas" aos milhares; rabos, paus e afins; "criancinhas esguichando sangue", muito sangue; "o Péle e aquela loura"...
Gostei da parte dos 3 porquinhos, porque foi a que mais me faz lembrar o Amor da infância, das historinhas, da ingenuidade!
Valeu o esforço da atriz em falar brasileiro...
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Let you go
Certeza temos que apenas tocamos o negativo -1, no instante em que morremos e dali não podemos voltar, mas até lá, um 1 pode transformar-se num 20 desde que aprendamos a ser sempre melhores, que nos saibamos defender das agressões, que amemos e saibamos dar valor às coisas realmente importantes de forma a sermos muito felizes.
Ainda hoje me custa a perceber como em escassos segundos tanta coisa pode mudar, em escassos 30 segundos a terra tremeu e levou cerca de meio milhão de pessoas... como e porquê?!?
Existem tantas atrocidades, tantos desastres naturais ou não, tanta fome e tanta miséria, tanta dor e eu que estou na minha casa, confortável e quente, a escrever no meu iMac tenho o displante de me sentir triste?!
Não percebo... e revolto-me comigo por não ter chorado aquelas mortes e agora chorar porque a TPM existe e nos deixa frágeis, porque ontem tudo foi tão bom que chega a doer com medo de ser irrepetível, porque alguém decidiu respeitar os meus sentimentos quando eu já só queria não pensar que amo, porque depois de tantos anos tive uma semana com um entendimento fora do vulgar, porque existem coisas tão fortes que nos sufoca contê-las e quando no final depois de estarmos rodeados de tantas pessoas voltamos para casa, sós... a única coisa que se sente é uma solidão maior que o mundo lá fora!
Por uma estranha coincidência puseste-me a "ouvir" Michael Bolton e descubro em "One world one Love" (so perfect) a música que me faz encarnar Madalena!
Deixo que a música diga aquilo que eu não sou capaz de dizer... não mais do que já disse estes 7 anos!
Só queria mesmo, mesmo tirar um 20 naquela parte que se chama esquecer o amor que teima em não ir embora... e deixar-te ir!
sábado, 16 de janeiro de 2010
Buika
Numa das nossas muitas conversas surge o nome, Buika...
Pesquisas, youtube e o ouvido fica sensível e apegado à voz...
Cool Jazz Fest numa quinta-feira... impossível para mim, com grande pena.
Jantar, conversa, a música no iTunes... alguém gosta bastante!!
Prenda de Natal, meia prenda também...
Dia 16 guardado para Air desfaz-se e decido ficar pelo Porto.
Eis que chega a segunda-feira e uma flor escreve-me que "Buika vai estar no CCVF este sábado!"
Começa uma sucessão de acontecimentos: eu em conversa com a primeira pessoa que me falou neste nome, a flor, o dono da prenda e a "miss tanto para fazer, mas ainda há lugar para mais uma coisinha" (só porque é sábado) ficamos com lugar garantido no espaço de 20 minutos em que liguei para o Centro Cultural de Vila Flor e alguém muito simpático me explicou que o ideal seria fazer uma compra online. 5... cabemos num carro!
Mas como à nossa volta existe um número considerável de pessoas que se movem em torno da cultura e somos jás uma espécie de família, uma delas vê um vídeo no FB e decide, "também quero!" e o 5 passa a 6 e depois a 7. Bem no fim, quando já só restavam 17 dos 800 bilhetes disponíveis.
Tarde de chuva, mas a euforia imperava... chegamos cedo e seguimos para o bonito Largo da Oliveira em busca de uma bar giro... a fome já apertava... a sede também!!
Rolhas & Rótulos foi escolhido pelos primeiros a chegar e os restantes também lá pararam por outra coincidência! Crasto, tapas, muita animação, boa conversa, um sítio que se aconselha vivamente... 21h20 seguimos para o bonito CCVF!
Cadeiras confortáveis, lugar estrategicamente escolhido, muito boa companhia...
Ivan "Melon" Lewis abre o espectáculo ao piano, depois entra aquela que nos levou ali, para alguns já conhecida, para outros, apenas uma ou 2 músicas, mas aquela voz não nega... todos percebemos o que ali nos tinha levado, "uma força maior"!
A voz poderosa de Buika, vestida de vermelho, confundiu apenas por no cartaz referir que ia ali apresentar a "Niña de Fuego" e o que mais se ouviu foi "El ultimo trago" trabalho mais recente com Chucho Valdés, mas ninguém se sentiu gorado, excepto pelo grande desejo de se ouvir "Volverás" que não foi cantado! Ela Volverá para nos cantar!
A energia inicial de "Vamos dançar!" deu lugar a um pequeno cochilo da nossa miss que foi diversão geral, extra Buika. Tão linda!
Mais um trago e mais uma canção e Buika foi subindo, deixando-nos cada vez mais rendidos...
Para mim uma noite de felicidade, pois reuni pessoas muito importantes na minha vida, porque finalmente vi Buika e porque aprendi realmente aquilo que havia ouvido na voz forte da Buika.
"al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas
y esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón
...
que el amor es simple y a las simples cosas las devora el tiempo"
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
A Febre
"A Febre é um nó por desatar. Um punho fechado: um murro, um coração, um gesto político. Um texto que não se furta ao excesso, à contradição, à dúvida, ao conflito; uma voz que segue assim, aos trambolhões, claríssima, até ao extremo, para lá da margem, para lá da pergunta, até ao próprio limite da identidade.
De um lado, os balões alegres de que todos gostamos, candelabros bonitos, embrulhos maravilhosamente complicados com delicadas jarras de porcelana dentro, caixas que dão suspirozinhos, bailados e óperas, peúgas difíceis de encontrar, amigos divertidos, enfim, a vida, a vida!, a vida que, sim, pois, deve ser festejada. E, do outro lado, a guerra, a tortura, fotografias de cadáveres, o cheiro esquisito das salas de estar dos pobres, a carne nojenta que parece aumentar no nosso prato, os rapazes maus do bairro mau, os países “em desenvolvimento”, a empregada da limpeza que nasceu para ser aquilo e nunca poderá ser mais que aquilo, o medo, o ódio, a loucura, o vómito. De um lado, Juana, a bela guerrilheira, a bela mártir, olhos brilhantes que aprendemos a admirar. E, do outro lado, o gelado descoberto no hotel obscenamente caro do país revolucionário que visitámos por causa de uma tichârte, o gelado viciante e inesquecível, o gelado multicolor que nos há ‑de doer para sempre (mas nunca o diremos, não podemos dizê ‑lo nunca, é segredo, chh).
"…e portanto sim, precisamos de conforto, precisamos de consolo, precisamos de boa comida,
precisamos de coisas boas para vestir, precisamos de belos quadros, filmes, peças de teatro, passeios no campo, garrafas de vinho.” [A Febre]
E, no entanto, aqui não há conforto. Não há, pelo menos, o conforto habitual, o consolo de sempre.
Uma peça que não nos apanha pela “empatia” costumeira das ficções, antes por esta horrível
“cumplicidade” no crime. No crime da injustiça, da desigualdade, da desesperança. No crime da não abolição da morte.
A certa altura, a propósito de marxismo e relações de produção, o protagonista de A Febre dá o exemplo de um homem a abrir uma revista de mulheres nuas. Diz ele que, por trás do código que
é o preço da revista, o que se passa é que o homem pagou para que a mulher tirasse a roupa e se sentisse desta ou daquela maneira perante a lente do fotógrafo; que nada daquilo aparece do vazio, que o homem ordenou e a mulher obedeceu, que cada “produto” contém a sua própria “história”.
A Febre faz isto: fura os códigos, revelando o que está por trás deles, não deixando nunca que nos sintamos apenas, e oh tão confortavelmente, “espectadores”. Não, aqui estamos dentro da “história”, não viemos do nada e não estamos no meio do nada, somos “actores”. E, portanto, em consequência, saindo daqui, não teremos de agir?"
Saio da sala sentindo que é por aquilo que acabei de ver que venho regularmente ao teatro... saio sempre com um pouco mais do que levei!
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
O Ano do Pensamento Mágico
Viver em Manhattan é um sonho. Viver no Upper East Side é um sonho dentro do sonho. A casa é de sonho e de uma elegância que tem pouco a ver com a vulgaridade das lojas de estilistas nos passeios lá em baixo (Yves Saint Laurent e Tom Ford as mais próximas). O sonho é aquilo que fica, mesmo se já não estão as pessoas que o sonham.
Susana Moreira Marques
Excerto de “Quem é Joan Didion”. In O Ano do Pensamento Mágico
É bem verdade... e quando a dor se torna tão grande, quando a perda se torna tão evidente, não teremos nós a tentação de fugir dela e fingir que nada aconteceu?
"vou deixar os sapatos, porque quando ele voltar vai querer usá-los!"
Temos tendência para manter as coisas daqueles que partiram como se isso fosse o indício mais forte da presença física ilusória.
E espero ter oportunidade de dizer àqueles que amo, ainda em vida:
"Amo-te mais do que apenas mais um dia" assim como fui capaz de te dizer a ti...
domingo, 3 de janeiro de 2010
Coco Chanel & Igor Stravinski
Em 1913, a jovem Coco Chanel começa a se destacar no mundo da moda. Ao mesmo tempo, o compositor russo Igor Stravinski desponta no cenário artístico ocidental. A estréia do balé A Sagração da Primavera, em Paris, arrebata a jovem estilista. Anos mais tarde, já célebre, Coco é devastada pela morte do seu amante, Boy Capel. É quando conhece Stravinsky, recém-chegado a Paris como exilado da nova União Soviética. Coco oferece então sua casa de campo para abrigar o músico e sua família. É o início de uma relação intensa entre os dois artistas.
Título Original: Coco Channel et Igor Stravinsky
Intérpretes: Mads Mikkelsen, Anna Mouglalis, Anatole Taubman
Realização: Jan Kounen
Distribuido em Portugal por: ZON Lusomundo
Género: Drama, Romance
Ficha Técnica: Duração: 2hs | Origem: FRA, 2008
retirado do site trailer.com.pt
Dá que pensar a frieza, a objectividade, o rigor de Coco Chanel, um mulher que para mim representa a forma mais crua da liberdade, porque ela era livre, fazia o que queria, não deixando de se encontrar nela uma certa paixão, mas esquecendo em bom rigor, aquilo que se entende por ser feliz!
E aquela conversa no final sobre o dinheiro e a felicidade... sim, o dinheiro não compra tudo e não é sinónimo de felicidade! Prefiro de facto ter saúde, ser feliz a ser rica!
sábado, 2 de janeiro de 2010
Amor físico
"O amor físico não é sempre a eterna repetição do mesmo?
De forma nenhuma. Há sempre uma pequena percentagem de inimaginável. Quando via uma mulher vestida, embora, evidentemente, pudesse fazer mais ou menos uma ideia de como seria depois de despida (...) restava sempre um pequeno intervalo de inimaginável entre a inexactidão da ideia e a precisão da realidade, e era precisamente essa lacuna que lhe tirava o sossego.
(...)
O milionésimo de diferente está presente em todos os aspectos da vida humana e é publicamente desvendado em todo o lado, não precisa de ser descoberto, não é preciso nenhum bisturi para chegar a ele. (...)
Só na sexualidade é que o milionésimo de diferente aparece como uma coisa preciosa, porque não é publicamente acessível e tem de ser conquistado.
(...)
Os homens que têm a mania de mulheres dividem-se facilmente em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres a ideia que eles próprios têm da mulher tal como elas lhes aparece em sonhos, o que é algo subjectivo e sempre igual. Aos outros, move-os o desejo de se apoderarem da infinita diversidade do mundo feminino objectivo.
A obsessão dos primeiros é uma obsessão lírica; o que procuram nas mulheres não é senão eles próprios, não é senão o seu próprio ideal, mas, ao fim e ao cabo, apanham sempre uma grande desilusão, porque como sabemos, o ideal é precisamente o que nunca se encontra. Como a desilusão que os faz andar de mulher em mulher, dá ao mesmo tempo uma espécie de desculpa melodramática à sua inconstância, não poucos corações sensíveis acham comovente a sua perseverante poligamia.
A outra obsessão é uma obsessão épica e as mulheres não vêem nela nada de comovente: como o homem não projecta nas mulheres um ideal subjectivo, tudo tem interesse e nada pode desiludi-lo."
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Eu ouviria as piores notícias dos teus lindos lábios*
Ele vestiu-se de cores alegres, trajes de seda compridos, pintou-se cuidadosamente, calçou as sandálias compensadas, colocou as unhas azuis postiças e criou uma imagem inverossímil para se dirigir a todos e contar a história daquela menina. E nem que tudo o resto parecesse irreal, aquela história deixou em mim a marca de que em cada esquina espreita a mudança, por mais inesperada que seja.
"Era uma vez uma linda jovem inocente que vivia numa aldeia perdida no meio dos campos de arroz da região. Ela vivia rodeada de carinho e criava à sua volta um sentimento de alegria, porque lhe caracterizava sempre um optimismo inexplicável, mesmo perante as situações mais penosas. Essa jovem ia crescendo e com ela também os sonhos iam tomando uma forma mais adulta. Deixou a aldeia e mudou-se para a metrópole, conheceu uma nova realidade, fez novos amigos e um dia, sem aviso, deparou-se com aquela sensação de formigueiro na barriga, aquela ânsia de ver e estar com outra pessoa... apaixonou-se pela primeira vez!
Era como se de repente todas as cores se tornassem ainda mais brilhantes, era um brilho no olhar ainda mais forte, era uma vontade de ser cada dia melhor e mais feliz...
O amor trouxe-lhe ainda mais vontade de espalhar à sua volta o optimismo de acreditar que todos os dias podem ser melhores, que todos os dias nos podemos reconstruir e transformar os nossos sonhos em algo concreto, a nossa esperança em certeza!
Mas este optimisto e esta vontade de amar não era acompanhada pelo outro lado que se mostrava sempre renitente a novos passos, a uma realidade em conjunto. Era alguém que estava ali ao alcance dos seus olhos, das suas mãos, mas que não acompanhava a sua vida de perto, que ia e voltava ao sabor do vento, sem que um dia a menina deixasse de sorrir, porque sempre acreditou que o destino a tinha feito apaixonar-se por aquela pessoa e não por outra qualquer! (não que tenham faltado oportunidades antes ou depois)
Aquela pessoa tornou-se uma constante na sua vida, um facto inegável, mas que nunca foi mais do que aquele que vai e volta, que quer e não quer, mas que deixa sempre pregado naquele coração delicado o seu nome.
Depois de muitos anos, a mulher que tinha sido menina, tinha percebido que apesar de todos os seus sonhos se manterem inalteráveis, da esperança em ter algo mais ainda existir, aquela pessoa nunca ia ser mais do que o vento que umas vezes é quente, outras frio, umas vezes é forte, outras apenas brisa, umas vezes quase nos derruba, outras quase nem se sente... mas ela sentia que ia estar sempre lá e disso nunca duvidou!
Um dia, que parecia mais bonito que muitos outros, decidiram fazer uma piquenique num campo de margaridas onde apenas estavam eles e a natureza... Ela estendeu a toalha laranja e todas as coisas que tinha preparado com tanto carinho e ambos se deliciaram antes de se deitarem a olhar para o céu azul, em que as poucas nuvens brancas foram alvo de jogos de imaginação e se transformaram num urso, num pássaro, num cacto...
Até que, após um longo silêncio... ele lhe disse...
- Sabes aquilo que parecia eterno entre nós? Aquela vontade de te ver e estar contigo, aquela magia? Acabou!!
E assim, no meio do campo de margaridas, a olhar para o céu azul, ela percebeu que num instante tudo podia mudar, sem aviso, sem apelo nem agravo... mas que isso não significava que tivesse que deixar de ser o que sempre foi até ali... uma pessoa que irradiava luz e optimismo!
A tristeza existe até naqueles que sorriem sempre, porque a realidade se veste muitas vezes de cores alegres como as daquele campo para nos anunciar as piores coisas!"
E naquele instante percebi que corriam lágrimas pelo seu rosto pintado de branco e rosa, mas o seu vestido continuava a ter as mesmas cores fortes e alegres...















